‘Se os olhos forem suficientes’ [+]

Se lhes dermos tempo suficiente, os nossos olhos demoram-se aqui, nestas imagens, para lá do corpo. 

“Chão raso, vejo eu, depois penso na distância, próximo, longe, chão raso vejo eu .( …) toca-me. 

Suaves olhos. Suave, suave, suave mão (..) Toca, toca-me.”

(J. JOYCE, Ulisses pp77-78)

E se os nossos olhos forem suficientes, demoram-se, aqui, nestas imagens, tocando o plano do visível. E se porventura heróis, atravessarão a sua crosta.

Se forem suficientes.

Pois os olhos que lá estão, os que nos olham, atravessam-nos com uma espécie de mágoa universal, de distante e imensa que parece ser. Vêm fundidos numa tristeza sensível, redonda em sabedoria, daqueles de quem carregam no vazio um olhar tão cheio e negro, repartido entre a bravura e o cansaço que essa provoca. 

Já os nossos olhos, os que os olham, parecem querer assumir alegremente essa capacidade suficiente, e tentam entender os títulos dos livros em pilha desajeitada, que dividem espaço com as caixas de metal e com as figuras de proteção divina,- as religiosas e as pop, com a mesmo direito a altar, amor e veneração – na mesinha de cabeceira de Just May que partilha a existência com Pete May.

Ainda, os nossos olhos pedem para se demorarem no armário de roupa da Eva Wonder, catálogo dos alter egos dos seus eus, também verdadeiros, em devir. Atentam nos padrões das camisas e desejamos saber de onde vieram, que histórias contam. Adivinham as memórias impressas na superfície. Prendem-se num coelho de pelúcia que nos devolve, do seu canto da sala, um olhar ainda mais caído que o seu dono,mas que ganha a cena contrariando a tentativa de eufória de Baby Lame, o punk- horror drag queen.

Apresentam-se, assim, dois pares de corpos nestas fotografias. 

Cabem na mistura os corpos encenados e os espaços feitos de outros corpos, sem qualquer arranjo cénico. 

Estes segundos não se aprontam para o espectáculo. São a própria cena contentora das intimidades, dos quotidianos, das rotinas, das marcas nas paredes, dos sofás carcomidos, dos objectos prováveis e improváveis, das mesas cheias de coisas, das paredes cor de rosa claro, das escadas azuis, dos lençóis embrulhados, das borrachas que por vezes conferem aos corpos diferentes volumetrias, das flores de plástico.

Será, então, importante olharmos para o espaço da mesma forma que olhamos os corpos, permitindo uma vez mais a intromissão de que nos olha também de igual para igual.

Os espaços apresentam-se como eles são. Já os corpos… Ai, os corpos. 

Há pele escondida com adesivo cor de pele tentando rasurar uma origem corpórea. Só pedaço de carne que decidiu estar ali. A mais. 

Mostram e escondem tudo, ao mesmo tempo. Carregam camadas, e fixam-nos num exercício que parece rebentar na nossa cara como as ondas do mar . Balbuciam- sou eu, mas sou eu em processo-. Em fluxo e refluxo. 

Todos esses corpos – o de May, de Chiyo, de Mark, de Giacomo, de Mary, todos, podem até ser lugar para diferentes entidades operantes entre a ficção e o real, sem se saber muito bem qual é a ficção e qual é a realidade. São tão válidos, uns e outros. Não será essa operação a própria realidade?

São corpos cobertos com mais ou menos maquilhagem, mais ou menos cabelo, mais ou menos roupa, mais ou menos pele -da verdadeira ou da de plástico-, mais ou menos cola. Aquilo que nos dão a ver pode ser diferente, num ou noutro momento. 

Mas aquilo que nos olha, que escolhe ser é uno e vive pacificamente e em coexistência no mesmo corpo, no mesmo espaço e no mesmo tempo partilhando os seus objectos de afecto e as suas crenças para uma existência possível.

Volto à tristeza. 

Parece haver sempre uma qualquer tristeza a sair dos olhos das figuras em retrato, que melancólica e sorrateiramente adentram nos olhos de quem as olha. 

Há tristeza evidente nos olhos de Pete, de Eva, de Michael Georgous, de Annie, de Katayoun Jalilipour, de todos, mesmo que voltados de costas.

Esta tristeza é a de todos nós, humanidade seca.

É a aflição da nossa própria transformação na procura da liberdade estética, ética, moral, social. A inquietação e angústia de, verdadeiramente, encontrarmo-nos. 

E aqui não há falsos risos, sequer sorrisos. 

Nem euforias desmedidas iguais àquelas que estreiam nos palcos dos pubs e salas de espetáculos de East London. Aqui a presentação substitui a representação. Aqui não há espectáculo possível. Apenas o espectáculo da vida como ela é.

Se um dia os nossos olhos forem suficientes verão, ansiosos, esta luta distante.

Cláudia Melo 

Um texto para as fotografias da série In the Eyes of Kings and Queens de Cláudia Rocha, em exposição na ªSede.

31 julho 

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